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Farta Pão
Explicado a sério

Fermentação, sem jargão a mais

É o processo que separa pão de bolacha de farinha e água. Aqui vai o que acontece de facto dentro da massa — em português claro, mas sem simplificar ao ponto de deixar de ser verdade.

O essencial, em três frases

Fermentar é deixar micro-organismos vivos — leveduras e, na massa mãe, também bactérias — comerem os açúcares simples que já existem na farinha ou que vão sendo libertados dela. Em troca, produzem dióxido de carbono, que fica preso na rede de glúten e faz a massa crescer, e pequenas quantidades de álcool e ácidos, que são a maior parte do sabor do pão. Tudo o resto é gerir o tempo, a temperatura e a quantidade de "fermento" para que isto aconteça no ritmo certo.

Fermento comercial vs. massa mãe

O fermento de padeiro comercial (fresco ou seco) é uma única espécie de levedura, selecionada e concentrada para fermentar depressa e de forma previsível. É por isso que o pão de padaria industrial cresce em uma ou duas horas.

A massa mãe é uma cultura mista: várias estirpes de leveduras selvagens, que vivem naturalmente na farinha e no ar, e bactérias láticas, que competem e cooperam com elas. É uma fermentação mais lenta — e é precisamente essa lentidão, mais o trabalho das bactérias, que dá à massa mãe o sabor mais complexo e ligeiramente ácido que a distingue.

Porque é que a massa mãe é ácida

As bactérias láticas produzem ácido lático (o mesmo do iogurte) e, em menor quantidade, ácido acético (o do vinagre). Quanto mais tempo e mais fria for a fermentação, mais espaço têm as bactérias para atuar em relação às leveduras — por isso uma massa mãe fermentada no frigorífico durante a noite tende a resultar num pão mais ácido do que uma fermentada em poucas horas à temperatura ambiente.

O papel do glúten

O glúten é a rede elástica que se forma quando as proteínas da farinha (glutenina e gliadina) se hidratam e se organizam com a amassadura ou com dobras sucessivas. Não produz gás — só o retém. Sem uma rede de glúten bem desenvolvida, o dióxido de carbono escapa-se e a massa não cresce, por mais fermento que tenha.

Duas fases, dois objetivos diferentes

A levedação em massa (ou "bulk") é a primeira fermentação, com a massa ainda inteira: desenvolve sabor e estrutura, e é normalmente a fase mais longa. A prova final acontece depois de modelar o pão na sua forma definitiva, e é mais curta — serve sobretudo para o pão recuperar o volume perdido ao ser modelado, sem exagerar a fermentação antes de ir ao forno.

Porque é que a temperatura manda tanto

Leveduras e bactérias são organismos vivos: a sua atividade metabólica acelera com o calor e abranda com o frio, dentro de uma gama razoável — acima de cerca de 45–50°C começam a morrer, e perto de 4°C praticamente hibernam. Por isso uma cozinha a 18°C no inverno pode duplicar o tempo de fermentação face a uma cozinha a 26°C no verão, com a mesma quantidade de massa mãe. Não é imaginação: é biologia simples, e é a razão de a calculadora de massa mãe pedir a temperatura da sua cozinha em vez de dar sempre o mesmo número de horas.

Porque é que o sal abranda tudo

O sal retira água às células das leveduras por osmose, o que reduz a sua atividade — é uma das razões por que a maior parte das receitas só junta o sal depois de uma pausa inicial (a autólise), e por que uma massa sem sal fermenta visivelmente mais depressa do que uma com a quantidade certa.

Fermentação a mais e a menos

Uma massa sub-fermentada ainda tem muito açúcar e pouco gás: cresce pouco no forno e o miolo fica denso. Uma massa sobre-fermentada já gastou grande parte do açúcar e enfraqueceu a rede de glúten a ponto de esta já não conseguir reter o gás: a massa perde força, espalha-se em vez de subir, e o miolo pode ficar irregular ou colapsar. Ver o que correu mal para o diagnóstico sintoma a sintoma.